No mês de janeiro deste ano, durante viagem que realizei ao Espírito Santo, aproveitei para gravar algumas entrevistas com indígenas da região. Os depoimentos foram coletados para a produção de um novo documentário sobre pajelança, que será intitulado de "Sabedoria da Mata: Pajelança e Espiritualidade Indígena".
A pajelança é um conjunto de práticas e manifestações culturais e religiosas, originárias dos povos indígenas brasileiros. Essa espiritualidade pode ser encontrada em duas formas principais, a pajelança indígena, representada pelos rituais dos índios, e a pajelança cabocla, que são práticas religiosas mais ecléticas, encontradas comumente no norte e nordeste brasileiro.
Para entender melhor a pajelança indígena, fui ao município de Aracruz, no litoral norte do Espírito Santo, localizado a oitenta e três quilômetros de Vitória. No local encontrei diversas reservas indígenas, onde os nativos ainda lutam para manter vivas suas práticas, crenças e cultura. Na reserva indígena existem sete aldeias indígenas das etnias Tupinikim e Guarani.

Para compreender melhor a pajelança, fui ao distrito de Santa Cruz à busca do pajé guarani Tupã Kwaray, da Aldeia guarani Boa Esperança (Tekoa porã). Após conversar com o pajé, segui rumo à aldeia de Caieiras Velhas, que abriga índios da etnia Tupinikim. Em Caieiras Velhas, recebi a notícia de que o pajé havia falecido há pouco tempo, e fui conversar com sua viúva, Maria da Penha, que relatou um pouco de seu aprendizado a partir da convivência com o marido.
Mesmo com o esforço para manter viva a cultura e a religiosidade indígena, muito já foi perdido, principalmente após o contato de alguns índios com a religiosidade dos brancos, que às vezes, apresenta características e dogmas que colaboram para a exterminação das tradições religiosas originais da cultura indígena.

O documentário que estou produzindo é uma forma que encontrei para compartilhar um pouco sobre a rica tradição da pajelança, que ainda é pouco conhecida ou mal interpretada pela maioria das pessoas. Confesso que tive um pouco de dificuldade no momento da coleta de alguns depoimentos, dificuldades essas geradas a partir da relação exploratória e depredatória imposta aos índios durante anos pelo "homem branco". Em determinado momento da busca por entrevistados, cheguei até a ter uma conversa meio tensa com o cacique de uma aldeia, que demonstrou muita indignação por conta de pessoas que exploram os indígenas e difundem uma imagem negativa a respeito dos mesmos. Mas no fim consegui um material razoável com o pajé Tupã e com a dona Maria, que em breve compartilharei por aqui.